Educação para os Media: O que (não) andamos a fazer?

Dia 24 de Julho (quinta-feira), a partir das 19h00, no Forúm Fnac (Shooping Leiria), prosseguimos com o ciclo Seis e Media (#6eMedia). Desta vez com uma conversa em torno do tema “Educação para os Media: O que (não) andamos a fazer?”.
Os estímulos mediáticos são múltiplos e permanentes, porém, nem sempre são acompanhados por um processo de educação que vise o uso crítico. Música, filmes, livros, videojogos, jornais… haverá de tudo um pouco.

Catarina Menezes, professora no ensino superior (IPLeiria), Helena António, professora no ensino básico e secundário (Agrupamento de Escolas de Porto de Mós), Paulo Lameiro, músico e professor nessa área (director artístico da SAMP), e Jessica Vicente, estudante no ensino superior (Multimédia; Instituto Superior Miguel Torga), são os conversadores convidados. A moderar estará Paula Sofia Luz, jornalista (freelancer).

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Imprensa regional aos papéis

Raquel de Sousa e Silva, Luís Miguel Ferraz, Ana Isabel Costa, João Paulo Silva e Manuel Leiria. Foto: Pedro Jerónimo

Raquel de Sousa e Silva, Luís Miguel Ferraz, Ana Isabel Costa, João Paulo Silva, Manuel Leiria e outros conversadores. Foto: Pedro Jerónimo

O sector está em crise, há cada vez menos jornalistas nas redacções e, por outro lado, cada vez mais pessoas a fazer-lhes concorrência nas redes sociais online. Como lidar com isto tudo? Passamos ainda pela inevitável questão de qual é “o” modelo de negócio para o digital. Muitos a levantam, mas poucos ousam responder. Pelo meio, as administrações que parecem ligar pouco a estas questões, tal como os departamentos comerciais. Chegamos ao público, que é por quem tudo isto realmente interessa (será mesmo?). Mas quanto a esse, parece seguir pela mesma bitola de outros: a do alheamento (pelo menos a julgar pela afluência à última conversa). Então mas e o papel? Qual papel? O da imprensa regional “é relevante”, concluiu-se.

O problema dos recursos

Nem só de semanários se faz a cidade que é atravessada pelo Rio Liz. João Paulo Silva, director adjunto do Diário de Leiria, defende a sua dama, referindo que mesmo com escassez de recursos – “que é transversal” – é possível fazer um jornal de segunda a sexta-feira. “O Diário de Leiria era um jornal que era visto como não tendo futuro, mas cá estamos”, sublinha.

O esvaziamento das redacções e a redução de recursos também é recuperada por Manuel Leiria, jornalista no Região de Leiria. Daqui resulta que haja “menos investigação [jornalística]”, refere. Esta é ainda uma consequência da falta de investimento por parte das direcções e administrações dos jornais.

Ainda assim, vão surgindo alguns exemplos de investimento, sobretudo ao nível editorial. O Jornal de Leiria é dado como exemplo, nomeadamente as suas páginas de economia, ciência e tecnologia. Raquel de Sousa e Silva, coordenadora daquela redacção, reconhece-o, porém, revela dificuldades na comunicação entre jornalistas e empresários. “Quando tentamos dar alguma notícia de um projecto inovador, as pessoas têm algum receio em falar nisso”, refere.

A concluir a primeira ronda da conversa, Luís Miguel Ferraz, jornalista no Presente, o mais recente projecto editorial com sede na cidade, anunciado pela Diocese Leiria-Fátima como sendo uma continuidade dos dois projectos até então existentes – os semanários O Mensageiro e A Voz do Domingo. “O ficar no jornalismo religioso não implica que não se olhe para os conteúdos sociais, culturais”, porém, “parece-me que ainda está em fase embrionária o olhar o mundo, a sociedade”. Também neste jornal se partilham os mesmos problemas. Para termos “jornalismo pensado e bem elaborado, é preciso tempo. Como na redacção somos um e meio, logo, está tudo dito”.

O impacto na comunidade

Qual o papel da imprensa regional nas comunidades e territórios em que se insere, era uma das questões levantadas. Só na cidade de Leiria, têm sede um diário e quatro semanários. João Paulo Silva, socorre-se de uma notícia daquela semana, para ilustrar o que se espera do jornalismo de proximidade e concretamente dos jornalistas. “A notícia dos patos que andam a desaparecer”, que foi a mais vista durante o mês no site do diário, “pode ser o reflexo da crise”, questiona. Associados a acontecimentos que poderiam ser fait-divers, podem estar questões mais profundas e socialmente relevantes.

A proximidade é vulgarmente apresentada como sendo a principal característica da imprensa regional. Questionada sobre as implicações da deslocação da redacção do Jornal de Leiria para fora da cidade, Raquel de Sousa e Silva revela que elas ocorreram sobretudo ao nível do trabalho do jornalista. “As pessoas já não aparecem como faziam quando estávamos no centro da cidade (…) agora usam o email, o telefone”.

Já Luís Miguel Ferraz, aponta “os fiéis”, que querem saber notícias “da paróquia e da Diocese” como o público do mais recente semanário, enquanto que Manuel Leiria recorda a história e a credibilidade construida ao longo de quase oito décadas, por parte do Região de Leiria.

O novo meio

Dos quatro, o Região de Leiria é o que mais experiência tem da Internet. Terá sido inclusivamente o primeiro jornal regional em Portugal a fazer a transição para esse meio. Para Manuel Leiria, quem mais gere e há mais tempo o site e as redes sociais, o ideal era ter uma pessoa só a tratar disso. Mas, mais uma vez por escassez de recursos, “não é possível”. O jornalista aponta ainda a uma inversão de caminhos: o papel deve ser um reflexo do online e não o contrário, como faz a maioria da imprensa em geral e a regional em particular. No Região de Leiria “estamos a fazê-lo devagarinho”, sublinha.

Quanto no único diário da cidade, “cumprimos os mínimos olímpicos”, isto é, no site são apenas publicada a capa da edição e um excerto dos destaques. “Faz parte da estratégia do grupo [Diário de Coimbra]”, revela João Paulo Silva, acrescentando que “é preciso fazer mais”.

O acesso livre ou condicionado aos conteúdos levou a conversa até ao Jornal de Leiria, que após um período em que disponibilizava gratuitamente a edição em formato digital (PDF), deixou de o fazer. “O facto de estar o jornal todo online começou a levar à questão do retorno”, justifica. Actualmente apenas os assinantes, devidamente registados, podem aceder a esse conteúdo. Os restantes, podem fazê-lo uma semana depois – o arquivo está sempre acessível.

Já a estratégia digital do Presente, passa pelo site da Diocese Leiria-Fátima, uma vez que é a proprietária do jornal – através da Fundação Signis. Quanto à necessidade de ter um site próprio – que existe – e actualizado, “é preciso que a prática acompanhe a teoria”, justifica Luís Miguel Ferraz, recordado a escassez de recursos.

E que papel para o papel?

Manuel Leiria acha que não, dando como exemplo o vinil que esteve quase extinto e que entretanto reapareceu em força. “Penso que o papel vai ser valorizado de outra forma”, refere. O mesmo defende Raquel de Sousa e Silva. “Concordo que o papel não desaparecerá. Deverá ser um produto diferente”, argumenta. João Paulo Silva, por sua vez, não tem dúvidas que “o futuro é online”, recordando, para esse efeito, a “ideia generalizada da gratuidade”. Já Luís Miguel Ferraz, refere não fazer “a mínima ideia”. Ainda assim, socorrendo-se da experiência como director de um jornal local, defende que “quanto mais local, mais tempo vai demorar” a que se extinga o papel.

Entre o público, um adepto da preguiçação. Pedro Miguel, jornalista na Preguiça Magazine, recorda a experiência daquele nativo digital, que após um ano de publicação lançou um best off em papel. A adesão a este meio acabou por seguir a tendência do online, onde registam muitos visitantes e leitores. Paulo Sofia Luz, jornalista freelancer, preferiu colocar a tónica nos camaradas, referindo que a classe jornalística olha muito “para o seu umbigo” e que, regra geral, resiste às mudanças trazidas pelo digital. “É preciso que [os jornalistas] olhem à sua volta e se adaptem”, defende. Alexandra Azambuja, profissional na área do marketing e publicidade, entende que as empresas não conhecem quem é o seu público online. “A questão das métricas é importante”, isto é, quem lê, a partir de onde e durante quanto tempo, por exemplo. “Isto também passa pelos empresários, que estão pouco sensibilizados com questões de marketing”, acrescenta. Jacinto Silva Duro, jornalista no Jornal de Leiria, segue dentro da mesma linha. “Os anunciantes do online não podem ser os mesmos do papel”, sublinha. Trata-se de uma resistência que também chega os departamentos comerciais, como recupera Patrícia Santos, jornalista no quinzenário O Portomosense, profissional do marketing e ex-jornalista.

Ao nível do financiamento, Luís Miguel Ferraz recupera o caso dos meios locais, onde “os anunciantes são mecenas, são amigos. Quando eles desistem, o jornal fecha”. E isso sé sempre uma grande perda. Carlos Fernandes, durante anos colaborador do Jornal das Cortes, questiona: “Quando precisamos de fazer história da nossa região, vamos onde?” Até para os jornais locais, é importante estar online. Para o também investigador, há actualmente diversos meios e, por isso, “temos que pensar em públicos diversos”.

A concluir, Alexandra Azambuja lembrou que “enquanto as pessoas tiverem alternativa, vão ao online.

Imprensa regional: Que papel para o papel?

Dia 27 de Junho (sexta-feira), a partir das 18h30, na Fnac do Shooping Leiria, damos início ao ciclo Seis e Media (#6eMedia), com o debate “Imprensa Regional: Que papel para o papel?”.

A importância da informação de proximidade e as suas implicações nos territórios e nas respectivas comunidades, são o mote para uma conversa que reunirá João Paulo Silva, coordenador da redacção do Diário de Leiria, Luís Miguel Ferraz, jornalista no Presente Leiria-Fátima, Manuel Leiria, jornalista no Região de Leiria, e Raquel de Sousa Silva, coordenadora da redacção do Jornal de Leiria.

O presente e o futuro do sector vão marcar esta conversa, numa altura em que a comunicação se faz cada vez mais num ambiente digital. A moderação ficará a cargo de Ana Isabel Costa, jornalista na rádio Antena 1.

Liberdade sim, mas com noção das implicações

Alda Mourão, Paula Sofia Luz, Patrícia Ervilha, Adelino Malho e António Lucas. Foto de Marcelo Brites

Alda Mourão, Paula Sofia Luz, Patrícia Ervilha, Adelino Malho e António Lucas. Foto de Marcelo Brites

“Falar em censura não é falar em antes do 25 de Abril [de 1974], pois ainda hoje se vive”, começou por referir Alda Mourão, formada em História, no início da conversa em torno do tema “Liberdade de expressão: E depois de Abril?” (16 de Maio, Fnac). E sobre isso, recuperou dois exemplos recentes: os casos de “censura na classe médica” (para ler aqui; outro exemplo) e do “funcionário de hotel que foi despedido na sequência de comentários publicados no Facebook” (para leraqui). Sobre este último e relativamente à utilização das redes sociais, a também docente no IPLeiria manifestou a preocupação em relação a alguma “ingenuidade” que vai percebendo junto de actuais e antigos alunos. “Isto não pode acontecer! É preciso educar para o uso”, sublinhou, acrescentando ainda que “está a ser muito difícil passar que as redes sociais são espaço público e que os alunos têm que se salvaguardar”. Porém, Alda Mourão considera que esta não é uma situação exclusiva das novas gerações. “Há uma necessidade muito grande, transversal, de educação.” A Educação para os Media é precisamente um tema que tem gerado discussão nos últimos anos, tendo recentemente sido motivo de uma iniciativa de âmbito nacional.

Para Patrícia Ervilha, socióloga, “a informação é muito mais rápida e exige muito de nós”. E isso resulta grandemente da utilização que actualmente é feita das redes que, se por um lado permitem novas formas de socialização, também levam ao isolamento. “É mais fácil escrever no Facebook do que dizê-lo face a face”, sublinhou. Começou pelos blogues, “pelo prazer da escrita”, espaço que mantém, juntamente com as redes sociais. Daquilo que vai observando, regista ainda a muita informação que é deturpada e que por vezes vai parar aos Media noticiosos. Também para autora do blogue Escritamente, parece não existir, por parte de muitos utilizadores, a noção das implicações do uso. Do que se escreve, do que se publica.

Quem também começou – e se mantém – pelos blogues foi Adelino Malho, engenheiro electromecânico, “inconformado com a acção política”. Numa altura em que estava no activo ao nível partidário, percebeu que “o que fazíamos não passava para os eleitores ou se passava, passava de forma deturpada”, justificou. E sobre esta questão, o autor e co-fundador do blogue Farpas Pombalinas foi particularmente contundente: “tenho uma má imagem da imprensa local”. E porquê? “Aquilo que passam não tem grande valor para a comunidade, porque podem encontrar no Facebook”, isto é, “as notícias sobre o arraial ou sobre o acidente”. As implicações do uso, a percepção e a necessidade de educação para os Media também foram recuperadas por Adelino Malho. “[As pessoas] preferem que lhes contem uma história falsa, do que procurar a verdade”, referindo-se concretamente ao que, por vezes, é partilhado freneticamente nas redes sociais e que é imediatamente aceite sem leituras ou pesquisas complementares.

Por fim, António Lucas, gestor de empresas, socorreu-se da sua experiência como autarca – foi presidente da Câmara da Batalha durante 16 anos. “Comecei a utilizar o Facebook porque entendi que era preciso fazer chegar informações às pessoas, que de alguma forma não acontecia com os meios normais, fosse a Comunicação Social ou o Portal do Município. No fundo, queria dar-lhe um cunho pessoal”, justificou. Embora reconheça que nem todo é bom ou corre bem, faz um balanço positivo dessa experiência, dando inclusivamente o exemplo, do próprio dia, de um munícipe que o contactou através daquela rede social. “A pessoa até disse que sabia que eu já não era presidente da Câmara [n.d.r. é presidente da Assembleia Municipal], mas ainda assim pediu se o podia ajudar a resolver um problema relacionado com sinalização na via pública. Expliquei-lhe o que devia de fazer e se assim lhe poupei tempo e uma ida à Câmara, tanto melhor”, confidenciou.

Fotogaleria no Facebook.

O papel dos Media tradicionais na era digital

Estamos a viver uma “ditadura da novidade”. Quem o diz é Alda Mourão, referindo-se às implicações da utilização das redes sociais não só na vida de cada utilizador, como nos Media tradicionais, que por vezes se deixam levar pelo frenesim da instantaneidade. “Muitas vezes surgem notícias que nos prendem, que falam do que nos interessa, da situação actual… e de repente, deixam de falar no assunto”, referiu, questionando a obrigação dos Media e o papel dos jornalistas.

Também Adelino Malho questiona a superficialidade de algum trabalho jornalístico. “Os jornais estão a tornar-se um repositório da realidade corrente”, defende, acrescentando ainda que é na blogosfera e nas redes sociais que vão surgindo análises e abordagens aprofundadas sobre assuntos de interesse público. “[Esses espaços] são uma ameaça para os Media tradicionais, que se dissolveram do seu poder, que se deixaram capturar”.

Sobre esta questão, Pedro Jerónimo, do Jornalizmo – Movimento Cívico, referiu que “não podemos ignorar o contexto em que vivem os Media tradicionais”. Para o investigador nas áreas da comunicação digital e dos Media regionais, “temos a crise económica, a redução de jornalistas nas redações, mas também a negação de muitos deles em relação ao facto de parte do seu público saber mais do que eles e usar os blogues e as redes sociais para se expressar”. O próprio ritmo e o ciclo noticioso alteraram-se. “A lógica inverteu-se, isto é, muitos assumem que é mais importante dar primeiro, do que dar correcto. Se a notícia estiver mal, depois corrige-se, porque o online permite-o”. O tempo e os recursos são igualmente determinantes. “Os jornalistas têm agora que produzir para dois meios [n.d.r. tradicional e online], fazer o seu trabalho e também o dos seus colegas, que entretanto foram despedidos. Perante isto, o que se pode esperar ao nível da qualidade?” Para este membro do Jornalizmo, no final “quem perde é o público”.

Liberdade de expressão: E depois de Abril?

Era uma vez um engenheiro, uma professora, um gestor e uma socióloga. E ainda os blogues, as redes sociais… enfim, toda a parafernália de possibilidades comunicativas surgidas com a Internet.

É precisamente o que têm em comum: todos usam meios online para se expressar. Livremente. Uma conquista de Abril, vivida por alguns deles. De 1974 a 2014.

Para conversar na Fnac do Shooping Leiria, esta sexta-feira, 16 de Maio, a partir das 18h30. Com Adelino Malho, Alda Mourão, António Lucas e Patrícia Ervilha, respectivamente. A moderar estará Paula Sofia Luz, jornalista.

Para que servem as notícias?

O jornalizmo : movimento cívico associa-se à iniciativa “7 Dias com os Media” (2 a 9 de Maio), desafiando os leitores da imprensa leiriense a questões como: “para que servem as notícias?” e “quais são as suas implicações no quotidiano?”

Pretende-se envolvê-los numa reflexão colectiva sobre o papel das notícias. No final, serão reunidos os contributos recolhidos.

Jornal de Leiria, Diário de Leiria e Região de Leiria são os jornais participantes.

Ora cá estamos

Jornalizmo jornalizmo : movimento cívico. Podes chamar-lhe projecto, fórum ou ideia. O mais importante é o conceito: reflectir o jornalismo, as notícias, os média, os jornalistas… tudo sem perder de vista o Rio Liz. Do online para o offline, dando protagonismo aos cidadãos.